Talvez alguém também se lembre dessas noites
e se recorde de tudo e de todos


...E se embriague em vão por aí
Onde estiver


...Onde certamente eu já estive
   com meu Teatro de Bonecos


...

J era amado por S
mas J amava L
que nunca o entendeu
e que amava Hambolt
que amava Amnetta


E J foi gastar seu tempo
acabando com seus nervos
amando a Sra. X
que apenas amava a si mesma

23h00
percevejos


Wholzer parecia constrangido
nem quis ficar para um café
para o último cigarro...

...Por quê?
    Por quê?!


Por que todos têm de ser assim
tão pobres de espírito?
Tão sem criatividade?
Tão vulgares?
Tão sem graça?
Por quê?!
Por quê?!




Todos se retiram, inclusive Hambolt
que, apesar de todo desvario 
não sabe como argumentar


Amnetta, já mais conformada ao seu novo ser inativo
apenas se contempla
num espelhinho de bolso




"Não sou bonita, Wholzer?!
 Não sou louca, Wholzer?!"


23h20

Arthuro se prepara para dormir
para sonhar...


00h15

Surgindo entre os crisântemos coloridos
no vaso sobre a mesa
o olhar cinzento de Amnetta me observa
Parecendo, num átimo, reprovar-me. 

Por de trás da cortina de seda
novamente Mão Peluda me atira pedras 
na cabeça.

00h35


O sangue pulsava
em minhas veias
tal um mar revolto
querendo tocar a Lua
Meus olhos quadriculados
guarda-sóis de cenas tropicas
procuravam pelos teus
na paisagem já distante da sala
perdendo-se no azul
...Oh, Amnetta
   Onde você está?




No Outro Lado da Sala




Havia um leão velho e imundo
trancado no quarto 
E duas serpentes negras
se enrolavam nos pés de sua cama
Enquanto duas aranhas se exibiam
fazendo malabarismos
penduradas em teias prateadas
que pendiam da teto.


Uma luz fria penetrava pela vidraça
Uma luz que não mostrava toda sua beleza
toda sua graça
Mas que apenas perseguia, nua
minhas alucinações pela casa vazia.




O vento de abril
quer me massacrar
agitando as janelas
fazendo as paredes antigas tremerem

Corro
procuro um canto mais seguro
de onde eu possa vê-la
durante toda madrugada
até o despertar!


Segunda-feira

Arthuro acorda bruscamente

"Ela! Onde ela está?!"

Agora as imagens estão cansadas...
Durante toda a noite
a TV permanecera ligada
até sair do ar


Sobre uma escrivaninha, algumas cartelas vazias de pílulas
maços de cigarro amassados
drops Dulcora
flores murchas
receitas, bulas
vidros, velas
gotas de sangue...


"Ele está assim desde quando?" - pergunta o senhor de chapéu e bigodes;
"Ele se alimentou?"

Mas Amnetta não sabe o que responder
e apenas procura os ponteiros do relógio na parede

"Estes fios de cabelo no chão, 
e aquelas cartas, vamos levá-las"

Também no chão, algumas letrinhas plásticas
passam despercebidas aos olhos daqueles homens
usando casacos pesados




Vamos!
Logo ele recobrará os sentidos
E tudo e todos
voltarão ao seu devido espaço
em seu devido tempo...