Album Zutique








Alucinações Bombam



22/03/1984
terça-feira
21h09


Primeiro foi assim:

Eu ouvi tosses, um acesso de tosses. Depois a porta se abriu lentamente como um sarcófago, sem produzir o mínimo ruído. Chovia. E então ele, ou  ela, entrou; não me recordo muito bem agora. Eu havia fumado, e estava muito distante de tudo naquele tempo.


Tinha o corpo recoberto por algo parecido com uma lama prateada, ou azulada talvez. Olhava em minha direção como se nada visse, como se não tivesse olhos.


Não me recordo também muito bem das primeiras palavras que lhe disse, mas apenas que trazia na mão esquerda um coração mecânico, que ainda batia, enrolado em alguns pedaços de arame farpado.


Não sei que horas são
Sei apenas que ainda há Sol, ou uma Lua cheia talvez


Ultimamente estou assim...


Todos passam. Toda noite, por mais bela que esteja, também passa, e as Estrelas, assim como os pensamentos, parecem nunca serem os mesmos.


tortas de maçã - pensamentos - sarcófagos?


Amizade apenas?


Duas relações de amizade nunca estão num mesmo tempo.


A e B = tx
A e C = ty 


Logo, penso que não seja prudente acreditar que meu relacionamento com a Senhora L possa ser de alguma forma prejudicial a Senhora B


"Pessoas em tempos diferentes não coexistem" - penso, parado em frente ao portão de casa, procurando estrelas no firmamento, sentindo a brisa, tentando identificar sua direção e perfume, observando em seguida o cair de uma flor que se desprende de um dos galhos mais altos de uma das nove árvores.




Sábado


Havia um guarda noturno entre as roseiras no jardim da casa ao lado. 
Segurava uma hiena escura como a noite presa a uma guia.


Aproximei-me e vi que seu uniforme estava do avesso.


Domingo nos encontramos novamente.
Ele ou ela, ainda não sei, estava de azul. Não me recordo das peças de seu vestuário. Apenas o azul me impressionou. Desta vez eu lhe sorri bastante.
Às vezes fico pensando: "Quando todos partirão?"


Eu Sou Outro Homem Na Mesma Sala


Encontro-me ocioso, inerte, abandonado em uma sala escura, olhando sem propósito algum para uma enorme janela com 36 vidros retangulares. Através da transparência da cortina observo lá fora na rua deserta a lâmpada acesa em um poste.


Ouço os conselhos de uma voz tímida, que surge junto ao chão, por de trás de um vaso sem plantas, colocado no ângulo formado por duas paredes sem cor. Há apenas alguns musgos em toda borda do vaso.


A voz tênue me pergunta:


"Você é um  Quixote?"


Talvez Haendel saia das caixas acústicas e grite bem alto:
"Ora, vá se foder!"


Talvez nada signifiquem os arabescos florais em relevo na cortina branca, que agitada pelo vento, projeta numa das paredes a sombra de uma dama, cuja presença, até então, eu não havia notado.


Por que eu sou um homem que sobe e desce escadas pacientemente.
Talvez nada signifique mesmo tudo isso. Nada signifiquem os sons das buzinas ao longe. Talvez, nem haja voz alguma na sala, mas, apenas você.


"Agora você pode voar. Suas asas cresceram"


Viajo o tempo todo por esta sala escura, ouvindo a música mecânica produzida pelo relógio sobre um dos móveis cheio de livros mentirosos. Viajo o tempo todo sem ver nada, além da luz trêmula daquela estrela distante.


Talvez a criança, adormecida em uma das poltronas, respirando com o rosto encostado junto ao nariz do palhacinho de pano, também viaje por castelos medievais, ou por labirintos brancos de isopor;  ignorando a minha liberdade, ignorando que eu, ali inerte como uma estátua de ideias, esteja lá fora no espaço sideral, flutuando ao compasso de Haendel, bronzeando-me na luz daquela estrela. Achava elegante o arco-íris que surgia em seus olhos...


...Como era bom poder voar, considerando-se o fato de ser apenas um homem.


Creio que tudo isso se explique, não pelos detalhes da cortina, nem por aquela voz, que, inclusive, agora já cessou; mas sim pelo fato de ser eu um outro homem, e, assim, poder apreciar, em raros e efêmeros momentos de lucidez, o brilho daquele astro.